Extremismo e fundamentalismo

Assisti esta semana a um documentário sobre as origens do Yoga. Nele tentava-se descobrir onde este tinha originalmente nascido, o seu propósito inicial, e porque era praticado. Além disso, e porque se tornou uma activide tão popular, dava a conhecer novos tipos de derivações do yoga modernas, como Rave Yoga – yoga praticado ao som de musicas alternativas com pinturas fluorescentes e luz negra, ou Yoga Cristão – Yoga despido de qualquer vestígio de mantras hindus, substituidos por salmos cristãos recitados na prática.
A contrapor esta última versão, era entrevistado um católico que dizia não praticar yoga pois era associado a outra religião, e que evitava qualquer postura de yoga mesmo que por acidente, pois temia que isso pusesse algo em risco na sua devoção.
Temos então duas visões distintas – a adaptação de uma ideia de forma livre, e a defesa do fundamento ao extremo.
Aqui tanto é verdade que o Yoga tem uma fundação espiritual/religiosa, como é verdade que a sua vertente de prática física (pois o Yoga é composto por muito mais elementos) foi adoptada e adaptada por muitos. Os seus benefícios continuam a existir mesmo desassociados da parte espiritual, assim como não teria maleficio algum uma pessoa colocar o seu corpo em determinada posição correndo o risco de ofender um outro deus.
A partir deste exemplo podemos falar de qualquer coisa. Religião, política, culinária, dança, jardinagem…
Tudo tem um fundamento, uma origem, um propósito inicial. É importante conhece-lo. Mas quem o criou foi tão humano como nós. Podemos adoptar uma ideia, um modo de vida, fazê-lo nosso. Mas podemos impo-lo aos outros? Temos o direito de achar que o que nós pensamos, que é o mesmo que alguém noutro dia pensou, é o único modo correto de pensar?
Tudo bem. O Yoga nasceu de uma maneira. Mas e se eu quiser para a minha felicidade misturar Yoga com Kick Boxing (que existe, para que conste), não estarei no meu livre direito? Não é para isso que o Yoga nasce, isso pode até contrariar os seus principios. Mas quem quiser pode segui-lo na forma original. E quem quiser pode misturar o que o fizer mais feliz. Talvez possa não lhe chamar yoga, ou kick boxing, mas uma mistura dos dois.
Podemos ter a nossa opinião sobre o correto ou o incorreto. Mas não devemos ser extremistas ou julgar os outros nas suas escolhas e o que os faz feliz. Se isso não interferir na nossa liberdade, porquê interferir na dos outros?
Se eu praticar uma outra religião e alguém achar que eu vou arder em algum inferno por isso, a preocupação não devia ser minha? Você está assim tão preocupado com o meu bem estar? Ou quer apenas o mundo à sua imagem?
Existe uma frase que aprecio bastante que diz “Qualquer que seja o Deus em que acreditas, rezamos todos ao mesmo”. Qualquer que seja o caminho ou a forma escolhida, no fundo se Deus é um só estamos todos a falar com o mesmo.
E assim como todos os caminhos. Cada um segue o que o faz mais feliz e o que lhe parece melhor à sua imagem e modo de pensar. Não sabemos porque não há ninguém que nos diga, que essa forma é a correta. Então teremos de viver e deixar viver.
O amor, a liberdade, a saúde, esses e outros são sim valores universais. A esses sim, agarremo-nos com extremismo.
É dificil. Muito dificil. Se temos as nossas crenças é porque também tivemos de fazer uma escolha e tomar uma decisão porque achámos que essa era a melhor. Então como evitar a tendência de querer fazer ver aos outros o nosso ponto de vista? Eu própria não praticando nenhuma religião tenho tendência a ter um sentido crítico para com todas elas. Respeito e não me ofende nem nunca será um conflito para mim. Mas é quase incontrolavel a vontade de entrar em debate.
Mais uma vez, procuremos antes os valores em comum. Seja indo à igreja, abraçando árvores ou rezando mantras, se o caminho é encontrar a paz, então que sigamos os nossos diferentes caminhos e encontremo-nos no mesmo destino.
A defesa de algo ao extremo será sempre limitadora. No entanto tudo tem sempre duas versões, ou mais. Diversos pontos de vista. E como me disse alguém “todo o ponto de vista é visto de um ponto”.

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O sentido da vida

Vamos supor que cada um de nós tem um dom, uma vocação. Que o nosso propósito é descobrir e utilizar esse dom para o bem da humanidade, para o bem dos outros. Para que num dia, um dia longínquo, atingíssemos uma outra consciência, e percebêssemos e conseguíssemos pôr em prática, a melhor forma de viver em sociedade. Sem guerras, sem conflitos, sem problemas económicos, sem lutas ideológicas, sem qualquer problema. O mundo e a humanidade tinham finalmente atingido a perfeição.
Vamos supor que era esse o sentido da vida. Então se for, vamos também supor que lá chegaremos. Então vamos supor que lá chegaremos “em tempo útil”. Estamos já nessa sociedade evoluída. E agora? Qual é o sentido da vida?
Nascemos, crescemos, e tudo é perfeito. Não há onde ir, não há o que fazer, pois tudo está completo e harmonizado. Qual o sentido da nossa vida? As sensações?
Sabendo que nascemos e vamos morrer um dia, a fazer haveria apenas a procura das sensações? O satisfazer dos desejos mais simples e puros? Comer, sentir o sol, rir, ver o mundo. Passaríamos assim uma vida, apenas satisfazendo as nossas sensações, recolhendo sentimentos positivos e apenas aproveitando até ao momento de desaparecermos?
E se não for assim? Parece-nos redutora esta visão. E se as sensações físicas forem apenas mecanismos da natureza, em nós enraizados, mecanismos de sobrevivência, com o único sentido de nos preservar e gerar mais vida? A fome, o medo, o instinto, o desejo. Tudo para garantir e gerar mais vida. Que depois morre. E assim segue o ciclo.
Então pensemos na realização espiritual. O que interessa não são essas sensações físicas. Renunciemos a elas, diminuamos-lhe a importância, satisfaçamos apenas o essencial. O que almejamos, o que descobriremos neste mundo perfeito é que existe uma outra consciência, um sentimento de pertença ao cosmos, uma sensação de conhecimento absoluto, uma espiritualidade que sentiremos facilmente, que será a nossa droga natural, que nos fará sentir bem com a vida e com a morte. E depois, ela vem, a morte. E que sentido teve essa vida?
E se essa iluminação acaba por não responder a nada? No fundo, chegar a esta última sociedade perfeita, ultrapassar as sensações físicas, chegar à iluminação espiritual, dar-nos-ia a mesma utilidade que constatar que realmente é assim que tudo se vai passar. E que utilidade é essa? Viver por viver? Se eu atingir a iluminação aos 27 anos, que fazer com o resto da vida? Viver de sensações espirituais, renunciar ao mundano até à morte. No fundo passar por aqui como quem não passa.
Quantos iluminados conhecemos? Será que alguém um dia lá chegou? O monge tibetano, do alto da sua montanha, atinge a iluminação. E que faz? Vive o resto dos seus dias em paz? Ou com o sofrimento de nunca mais encontrar companheiro de conversa à altura e sentir asco pela vida corriqueira e as notícias do jornal? E nunca lhe passou pela cabeça contar ao mundo a que conclusão chegou? Achou que não valia a pena? Seria egoísta? No fundo egoísta seria se o quisesse contar ao mundo. O ser humano tem como base de tudo o seu ego, e essa é uma das outras grandes interrogações. Porquê o ego? Porquê a necessidade de contar aos outros e partilhar com alguém aquilo que somos? Aquilo que achamos serem as nossas conquistas ou conhecimentos? As ações que achamos fazer por bem? Existe verdadeiro altruísmo? Ou as ações pelo bem dos outros são outra forma de egoísmo? De nos sentirmos bem connosco mesmos porque achamos que fizemos algo de bom? Porque procuramos a palmadinha nas costas, seja dos outros ou de nós mesmos? E o que há a descortinar neste egoísmo? Será apenas mais um mecanismo básico de sobrevivência da natureza? Preservar o Eu? (E será o amor apenas mais um egoísmo? Uma ilusão altruísta e um desejo de que gostem de nós? De sermos validados?)
Se pusermos as coisas nesta perspetiva – de que caminhamos para um mundo perfeito ou de que já lá estamos – chegamos à mesma conclusão. É tudo inútil. Somos reduzidos à vivência, à experiência. Vimos cá experienciar, física ou espiritualmente. Se houver outro sentido, estará talvez oculto após a morte, numa outra vida, numa outra dimensão da qual desconhecemos o sentido. No universo…em Deus talvez.
Para já, não tendo alcançado este mundo perfeito, podemos ao menos agarrar-nos à sensação de que temos uma missão – a de lá chegar, cada um de nós à sua maneira, com o seu dom. Porque no fundo o homem tem um grande impulso de movimento. Podemos sentar-nos numa cadeira ao sol, numa tarde perfeita, e achar que podíamos passar ali uma eternidade. Mas ao fim de umas horas a cadeira incomoda, o sol já não é suficiente, a paisagem é aborrecida. Mesmo que tudo continue perfeito queremos algo mais, algo novo.
Então talvez o sentido seja esse. Talvez tenhamos uma missão. Mas se a temos, não esqueçamos que no fundo já sabemos o sentido da vida. Quando lá chegarmos, ao mundo perfeito, seremos apenas sencientes, físicos ou espirituais, aguardando algo que nunca descortinaremos, pelo menos não nesta vida.
Então, não nos esqueçamos de experienciar. De procurar o prazer em qualquer forma – física ou espiritual. Seja este um mecanismo de sobrevivência natural, um caminho espiritual, ou uma inutilidade. Simplesmente aproveitemos e sejamos felizes.
Mas sem excessos… não esqueçamos que temos uma sociedade perfeita para alcançar!

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A terra do silêncio

Era uma vez um rei mau que nasceu na terra do silêncio. Como todos os reis, tinha herdado o título pelo destino de ter saído de uma barriga rica em vez de uma barriga pobre. Cresceu rodeado de outros umbigos ricos que o ensinaram o jogo do poder. O rei gostou tanto deste jogo que decidiu ser o melhor. Queria ganhar sempre que jogasse. E assim, para ser o melhor, derrotou todos os outros até se sentar na sua final cadeira de rei. Mas agora estava aborrecido. Queria jogar mais e para isso precisava de mais jogadores. Com satisfação constatou que só tinha jogado com os seus amigos que, como ele, tinham nascido de barrigas ricas. Nunca tinha jogado com o povo. Mas agora sentado no seu trono tinha esse poder.
O rei começou então a jogar com o povo habitante da sua terra – os silenciosos. O rei não estava sozinho. Para jogar com o povo, pediu ajuda aos seus ex colegas derrotados que agora lhe deviam vassalagem. Proclamaram aos sete ventos que o jogo tinha começado, que se iniciassem as batalhas, que lutassem contra eles e jogassem ao poder.
Primeiro o rei disse que quem mandava era ele, e que a coisa mais valiosa que havia, eram umas bagas raras e valiosas que apenas cresciam no seu quintal, as únicas agora válidas na terra do silêncio. Para conseguir essas bagas, o povo teria de lhe prestar vassalagem. Conceder-lhe favores, estar disponível quando este quisesse e desejasse, para trabalhar nos seus projetos.
Depois o rei deu ao povo, para mostrar a sua generosidade e grandiosidade no jogo, umas mulas especiais que os silenciosos poderiam usar à sua vontade para se deslocar e carregar os materiais que pudessem ser de ajuda aos projetos que o rei para eles tinha. Estas mulas especiais, comiam uma erva especial que só o rei sabia onde crescia, e que o povo podia comprar com as bagas valiosas do rei.
No entanto o rei achou que tinha sido demasiado generoso com este gesto e começou a exigir mais bagas em troca da utilização das mulas.
Com o vencer do jogo em vista, o rei achou ainda que os silenciosos tinham muito tempo livre. Para ganhar, o rei tinha de ganhar todo o seu tempo para si. Então, convenceu o povo de que eles precisavam de conceder ainda mais trabalhos ao rei, para que conseguissem mais bagas do seu quintal, para que pudessem um dia sonhar ser tão felizes como ele. Terem roupas bonitas como a sua, mulas à disposição, e quem sabe até um pequeno quintal onde crescessem algumas das raras bagas do rei.
Satisfeito com a sua estratégia, o rei decidiu então, um dia, descer à vila dos silenciosos para ver o seu jogo aproximar-se do fim e festejar a sua vitória.
Quando chegou, ficou furioso. Por onde quer que passasse não havia vestígios das mulas, nenhum dos seus projetos pessoais tinha arrancado, os silenciosos passeavam-se alegres pelas ruas, com tempo livre, e plantavam as suas próprias bagas, frutos e legumes, que carregavam a pé para casa e comiam com a sua família. Das bagas reais, nem vestígio, e à sua passagem os silenciosos não demonstravam sequer conhecer sua alteza.
Cego de raiva o rei foi perguntar aos silenciosos como podiam eles desconhecer as novas regras e não estarem a trabalhar para se aproximarem da sua imagem, das suas roupas, das suas mulas, das suas bagas. Surpreendido ficou quando nenhum silencioso lhe respondeu. De facto, nenhum demonstrou sequer reconhecer qualquer palavra que lhe saia da boca, e tão pouco os ouviu proferir alguma.
Acontece, que para surpresa de toda a corte, na terra do silêncio todos eram surdos e mudos. O jogo do rei nunca tinha chegado aos seus ouvidos, e consequentemente nunca se envolveram a jogar. Continuaram a viver como sempre viveram, na sua comunidade silenciosa e sem poder.
O rei tentou ainda ganhar prendendo quem não jogava. Mas como ninguém sabia qual era o jogo, nem porque estavam a ser presos, isto logo se tornou inútil.
O rei, triste como só, acabou por se retirar para perto da sua corte, onde comeram bagas e passearam mulas, sozinhos, até terem de começar a cultivar as suas próprias verduras quando o tempo das bagas acabou.
Os silenciosos, a corte, e o próprio rei, viveram felizes para sempre.

Moral da história: Às vezes o poder é feito de coisas por ele próprio criado. Descartado o seu crédito, o poder deixa de existir. Não pela força de lutar contra, mas pela simplicidade de não reconhecer como válidas as coisas ou o modo de vida de que nos querem convencer.

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Decisões – o livre arbitrio

O que aflige o ser humano é o livre arbítrio. O poder que temos é a nossa maior fraqueza. Culpamos Deus, o destino, as condições, os outros, arranjamos desculpas, adiamos, opinamos e pedimos concelhos. Tudo para evitar encarar a realidade: que o que nos aflige não é o caminho, é escolher a direção. Sabemos que pela direita ou pela esquerda, depois de seguida a marcha enfrentaremos o que vier pela frente pois o mais difícil já ficou para trás: a decisão.
O maior medo é o de olhar por cima do ombro e pensar como teria sido o outro caminho. Com certeza seria melhor. Por isso preferimos quando as encruzilhadas são inexistentes. Preferimos estradas cortadas e ser obrigados a seguir o único caminho disponível, que tomar a responsabilidade de uma decisão, arcar com o peso da duvida e da nostalgia de pensar sempre que outros caminhos ficaram para trás e a decisão foi nossa.
Deus assim quis. Não havia outra hipótese. Quem decidiu não fui eu. No fundo não são lamentos mas palavras de aceitação. Difícil é tomar o peso da nossa responsabilidade. Da responsabilidade maior que nos foi dada se realmente acreditarmos em Deus ou no destino – o livre arbítrio. Não existem só dois caminhos mas uma infinidade deles. Atrás de cada porta um destino nos aguarda mas a escolha de por qual entrar é somente nossa.
É com o livre arbítrio que podemos ser mais nós ou abdicar de nós mesmos. Que aceitamos, fugimos ou lutamos. É talvez o dom mais importante que temos e por isso é tão difícil usa-lo.

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O Andanças e o Natal

Chamar ao Andanças festival pode gerar confusão na ideia de quem não conhece e está acostumado a ir aos comuns festivais. Vamos então chamar-lhe acontecimento. Para mim o Andanças é um acontecimento. Como se chama ás coisas importantes. O andanças acontece, e acontece-nos.
Vou saltar a parte da descrição generalista, para não voltarmos à ideia errada do que é o andanças, e passar aos motivos que me levam a escrever sobre ele e dele fazem um acontecimento.
Em primeiro lugar, o andanças é a experiência da comunidade. Para os sonhadores utópicos esta é a semana em que podem vivenciar, pela segunda vez no ano (e de maneira ainda mais evidente) além do Natal, o espírito de solidariedade, amizade, entreajuda, boa disposição e ausência de stress e más intenções, que faria resultar uma comunidade humana livremente associada. Aqui experiência-se quase uma comunhão, uma obrigatoriedade não formal de promover a paz e ter a sensação de que o mal nunca existiu no coração de ninguém.
No Andanças diz-se bom dia. No andanças partilha-se. Fazem-se amizades. Dança-se. Pertence-se. Sorri-se. No andanças há filas, multidões, partilha de espaços, condições de vida e de estar simples… e no andanças não há conflitos, não há más disposições, não há atritos nem sobrancelhas franzidas.
Este é o espírito que surpreende quem vai pela primeira vez ao andanças e faz voltar quem nunca de lá quis sair.
Além deste espírito de corpo presente existe a excelente organização de quem consegue criar num espaço natural condições de higiene saudáveis e irrepreensíveis. Há água quente e fria, há lavatórios suficientes, há casas de banho a céu aberto que não cheiram e, imagine-se, têm sempre papel higiénico!
Há também espaço de carregamento de telemóveis, cantina com refeições completas com opção vegetariana a preços baixíssimos, há espaços de relaxamento, espaços de lazer, espaços criança, de actividades, de sono para bebés, de feira, de alimentação, de banhos (a bela barragem de Castelo de Vide ou os antigos poços de S. Pedro do Sul – primeira localização).
São ainda admitidos os cães, com responsabilidade e sublinhadas as condições mandatórias para o bem estar do animal e de todos, sem olhares de má aceitação por parte de vivalma. Também estes são aceites na comunidade. Cocós no chão, nunca vi.
Além de tudo isto e da beleza do espaço onde está inserido, o andanças é, como o nome indica, um acontecimento de dança. No entanto evito desde já mais alguma ideia mal formada – o andanças é para quem também não dança. Pédexumbo é o nome da associação que todos os anos promove o festival (agora já lhe chamo assim, feitas as ressalvas), e nele estão presentes tanto os pés direitos como os pés mais esquerdos. Não é o que importa para dançar no andanças. Também não importa a idade, que vai dos meses aos anos dourados. O que importa é ter vontade. E no andanças todos têm vontade. Vontade de dançar, de aprender, de interagir, de partilhar, de oferecer o sorriso e até a alma.
Durante a manhã há aulas de yoga, relaxamentos, trabalho com energias, consciências corporais e outras, de categoria zen. Durante o dia há palestras, conversas, workshops – de reflexologia, de alimentação, de pintura, de trabalhos manuais, de astronomia. A qualquer hora se encontram claro, as aulas de dança – Forró, salsa, kizomba, kuduro, danças do mundo, danças orientais, danças de roda, danças brasileiras, danças de fusão, danças tradicionais, danças a solo, a par, em grupo. No final do dia, podemos ainda ser presenteados com aulas de relaxamento, de massagens, de alongamentos ou biodanzas. Tudo sempre em harmonia e partilha, em tendas de chão de madeira que sabem bem usar descalço.
À noite é tempo de pôr em prática as aprendizagens do dia. Além de vários concertos de música diversa, tradicional ou alternativa, com pandeireta ou didgeredoo, as famosas tendas propõem diferentes bailes agrupados por género. Cada um escolhe o que mais lhe convier mas aqui não há casmurros – toda a gente experimenta tudo. Toda a gente dança e toda a gente sorri, e toda a gente se dá ao outro na dança a par ou na dança em grupo – seja com um sorriso, com uma mão dada em roda, ou com um olhar brilhante de acolhimento. E todos dançam com todos, não há escolhas nem recusas pois todos se aceitam como que irmãos.
Talvez quem não conhece fique com a ideia de exagero mas só experimentando se compreende o sentimento que o Andanças deixa no nosso coração e no nosso ser.
O andanças é ótimo para experienciar a vida nos outros e em nós e voltar rejuvenescidos para o dia-a-dia e para nós mesmos.
Para mim, este ano, o andanças foi tudo isto e mais ainda, como sempre o é. Uma oportunidade de viver mais e ganhar inspiração para continuar a fazer isso mesmo.
Melhor, só mesmo se o espírito do andanças, só comparável ao do Natal, se mantivesse em todos nós durante todo o ano, durante toda a vida. Não sendo fazível… façamos um favor a nós mesmos, e relembremos uma vez por ano (ou duas com o Natal!), o que é o ser humano, a comunidade – a paz e o amor!

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Porque me tornei Vegan

É verdade, agora não como carne. Nem peixe. Nem ovos, nem leite, nem derivados. Bolas isso deve ser difícil! Nem por isso… tenho gostado imenso. Mas o que quero é explicar o porquê da minha decisão e esclarecer alguns receios que surgem nas pessoas quando se diz que não se come carne…sabem, aquele olhar alarmado de quem espera logo que se caia para o chão com uma anemia.

Eu era uma pessoa “normal” (agora sou esta espécie estranha à qual chamam vegan), que comia carne e peixe e tudo mais com a maior satisfação. Gosto de carne, gosto de peixe, adoro leite e amo comer. Quando confrontada com um vegetariano pensava que era normal para nós, assim como para outros animais, comermo-nos uns aos outros. E pensava também que se toda a gente comesse à base de vegetais e frutas também teríamos um problema ambiental por falta de espaço para cultivo.

O ponto de viragem deu-se quando assisti ao documentário cowspiracy. Recomendo desde já toda a gente a ver. Não para forçar uma opinião mas sim para que toda gente tenha a informação que lá obtive, e depois sim, se quiserem, tomem alguma iniciativa.

Os principais factos expostos neste documentário são:
– A indústria de produção animal é a mais destrutiva para o planeta em termos ambientais. Para alimentar os animais (que comem muito mais que nós) a cereais (eles não andam no pasto a comer erva) são necessárias áreas de plantação cada vez mais extensas (que acabam por invadir zonas que não poderiam sequer ser uma opção como florestas tropicais e outros ecossistemas) e que consomem uma quantidade absurda de água.

– Esta informação é propositadamente ocultada pelo governo, indústria de carne e organizações ambientais.

-As condições de produção de carne, peixe e lacticínios são degradantes, cruéis e mesmo insanitárias na sua maioria.

Custa a acreditar que a produção animal ocupe o primeiro lugar da lista de poluentes ambientais, à frente de indústria petroleira e da produção fabril, e nunca nos tenham dito nada. Mas os interesses são grandes.

Em relação ao que eu mesma pensava sobre alimentar toda a gente a plantas, estava errada, não só ocuparia muito menos espaço como seria a única opção ambientalmente sustentável (nós comemos muito menos que uma vaca!).

Em relação ao meu segundo argumento, que era natural comer outros animais pois é isso que se passa na natureza, também há um senão. Primeiro porque começa a descobrir-se que somos muita mais herbívoro que carnívoro em termos biológicos e que temos dificuldades físicas na digestão e absorção desses alimentos. Depois porque não o fazemos de forma natural e digna. Um leão vive na savana, só come carne, está esfomeado, tem de alimentar a família, mata uma gazela que ali andava livremente (no meio de muitas) e alimenta a sua família inteira durante uma semana, para sobreviver. Quanto a nós, não vamos ao campo, disparar sobre uma vaca que por ali andava ao ar livre, levamos para casa, preparamos e dura-nos um mês. Não é isso que acontece. O que acontece é que vamos ao supermercado ou ao restaurante e consumimos sem pensar, o que nos apetece. O que nos satisfaz o palato. Não as necessidades nutricionais ou a saúde. Entretanto a carne que comemos (da galinha à vaca) vem de fábricas animais onde estes são alimentados a farinhas para rápido crescimento, em espaços apertados onde se espezinham e andam em cima das suas próprias fezes, muitas vezes sem ver a luz natural até ao dia de serem electrocutados (no caso das vacas, pois no das galinhas muitas vezes o processo começa sem a morte, essa virá depois eventualmente, mas muito depois de o sofrimento começar. Estes animais estão ainda cheios de antibióticos para suportarem as condições em que vivem sem nos transmitirem doenças, antibióticos esses que são ingeridos por nós.

Em relação à indústria do leite e ovos não é menos cruel, a questão não é que não se mata o animal mas as condições em que vive. Para produzir leite, tal como qualquer mamífero, uma vaca tem de estar grávida. Não, não é uma espécie mágica de vaca que dá sempre leite. Para isso elas são inseminadas artificialmente e quando parem o bebé é-lhes retirado, vai para a indústria da vitela, carne de bebé tenrinha. Quando deixa de produzir leite é inseminada novamente. Até à exaustão, até não servir para mais nada.

É um mito a criação das “vacas felizes” ou “galinhas felizes”. Felizmente vivemos num país onde ainda é possível encontrar produções caseiras de frangos de campo mas essa é a exceção, não a regra, e a maioria acaba por preferir o frango mais tenro, mais barato e mais acessível do supermercado.

Também não precisamos de leite. Somos o único animal que bebe leite de outro. O leite é uma fórmula de crescimento carregada de hormonas, apropriada ao respetivo animal do qual é a mãe. Não precisamos nem faz sentido algum consumi-lo. À exceção do da nossa própria mãe quando nascemos. Esqueçam a questão do cálcio. Há por aí cálcio aos pontapés em outros alimentos que não vieram de dentro de outro animal e que causam intolerâncias à lactose (porquê? Porque não foi para isso que fomos preparados). Os derivados penso que seja óbvio… queijo, manteiga e iogurtes são leite “estragado”!

Mas onde é que arranjas a tua proteína? Dizem os tais alarmados a ver anemia nos nossos olhos. Não há NENHUM elemento, mineral ou vitamina que não seja encontrado nas restantes opções de quem não come carne, peixe ou leite. Há proteína aos montes nas lentilhas, óleos essenciais nos frutos secos, vitaminas e minerais nos legumes e frutas, energia nos grãos e cereais. E não, não comemos só alface. Aliás quando deixamos de considerar como opção para o jantar um bife com arroz ou para o almoço um hambúrguer com batatas, começamos a procurar alternativas, a criar, a ser originais, a fazer novas combinações, a descobrir alimentos que nunca tínhamos experimentado e a redescobrir uma cozinha deliciosa e saudável que não pesa no estômago 3 horas depois. Para quem quiser continuar a ser “quadrado” existe ainda substituição para tudo: chouriços e carnes de soja e seitan (que sabem mesmo, mesmo parecido), queijos de tofu, leites e iogurtes de soja e etc.

Questionei-me ainda, se tivesse de ser eu a matar e depenar a galinha, se tivesse que ser eu a degolar o porco, se tivesse que ser eu a pescar o peixe, tirar-lhe o anzol da boca e deixa-lo a sufocar… quantas vezes eu comeria carne ou peixe? Se calhar nenhuma. Penso que a não ser que estivesse numa condição extrema de fome, perdida num deserto há duas semanas na companhia de uma galinha, eu nunca mataria um animal “só porque me estava a apetecer frango assado em vez de beringela no forno”. Então, decidi parar de se hipócrita.

Resumindo, não temos necessidade de comer estes alimentos que consumimos “porque sim”, porque foi o que sempre vimos à nossa volta. Sendo que no entanto antigamente (basta recuar aos tempos dos nossos avós) comer carne era uma ocasião especial. Era um perú no natal, um cabrito na páscoa. Uma coisa cara e com valor. O resto da alimentação era muito constituída por vegetais e cereais. Hoje o preço da carne traduz o valor dado à sua origem… excessivamente barato. E a custo de quê?

Não havendo necessidade, sendo cruel, sendo anti-ecológico, sendo muitas vezes hipócrita, sendo menos saudável… a questão passa a ser não “porquê ser vegan” mas “porquê não ser”.
Não exijo que se tornem vegans, mas pela vossa saúde, pela vossa consciência, pelo ambiente… repensem a vossa alimentação e reduzam o consumo de produtos animais. Começa a ser famosa a divulgação das “no meat Mondays” (segundas feiras sem carne). Pois eu propunha as meat Mondays (segundas feiras da carne), deixando todos os outros dias para outras opções. Ao inicio é normal pensar “então mas afinal faço o quê para o jantar”. No entanto a seguir todo um leque de opções deliciosas se desvenda.

Experimentem um restaurante vegetariano ou vegan, basta procurar no Google por várias opções até com buffet onde se pode experimentar várias coisas. Os websites com receitas vegan também já são imensos. A informação nutricional só não acha quem não procura, não faltam vídeos do youtube. Vejam ainda o documentário Cowspiracy e outros sobre produção alimentar. Trata-se apenas duma tomada de consciência de coisas que “fazemos por fazer” e que se conhecêssemos não compactuaríamos.

Deixo uma página facebook onde podem obter destas e outras informações facilmente (documentários, lojas, vídeos, informações, etc).

https://www.facebook.com/pages/V-Vibe/419869371518920

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Praxis

Hoje passei por uma praxe. Uns quantos veteranos. Uns quantos caloiros. Caloiros no chão, flexões, urros, veteranos em capas. Tudo normal. Depois vieram as canções. Os dizeres. E depois as vozes dos “veteranos”. Tudo errado.

Primeiramente apercebi-me, agora depois de alguns anos de ter terminado a faculdade, que um caloiro tem 18 aninhos, e o “temível” veterano apenas 19..ou 20..ou 21, ou talvez mais uns pouquinhos para quem tem já muitas dobras na capa (número de matrículas). Ou seja, um grupo de jovens muito jovens, uns quase tão jovens quanto os outros. Jovens que precisam ter grande discernimento na organização desta brincadeira que é a praxe e que têm de ter a (quase) ciência de criar uma “humilhação” saudável, e uma subordinação cúmplice, um esforço físico bem delimitado e em segurança.

Mas vamos ao que estava errado. Conteúdo das canções e dizeres: “zero conteúdo, palavrão, palavrão, sexo, zero conteúdo, sexo”. Discurso dos veteranos: “Cantem isso com alma porque isto é a nossa vida, palavrão palavrão, nós sentimos esta palavrão palavrão”.

Ora bem. Na minha altura, ou na minha faculdade, ou entre os veteranos que conheci, seja lá qual for o mais correcto, eu não me lembro de uma praxe tão vazia ou inútil. Ali nada exaltava o companheirismo ou a amizade, os valores do curso, ou tinha qualquer tipo de bom humor. Eu, uma defensora das praxes bem feitas, dei por mim a achar o que ali se estava a passar uma “figura triste”. Eu que andei pelas ruas pintada até às orelhas, com uma lata a arrastar pelo pé e um penico na cabeça. E posso dizer que passei pelas praxes duas vezes porque mudei de faculdade. Em ambas eu senti que o que estava a fazer, embora fosse uma figura, não era uma figura triste. Era uma brincadeira. Os hinos de curso eram minimamente honrados e não apenas alusões sexuais. Os veteranos eram preocupados com o nosso bem estar acima de tudo – caloiros à sombra, caloiros a beber água, caloiros sentados. As praxes eram brincadeiras. Faziam-se figuras, fazia-se disto e daquilo, ia-se buscar cervejas aos veteranos, éramos pintados até mais não – por veteranos ou crianças que se divertiam à brava com isso, escorregávamos em detergente, enchiamo-nos de lama, e víamos nos olhos dos veteranos um futuro amigo, no ar sério um sorriso disfarçado. E agora digo-vos, se tivesse participado numa praxe como a que vi hoje teria participado apenas um dia. Porque gritar asneiras sem sentido, ouvir veteranos a dizer palavrões por dizer, insistindo que aquele “hino” que nada diz, significa muito, estar de rabo para o ar a cantar sexualidades…não acrescenta nada, só diminui.

Pior. A praxe vinha de um curso de comunicação. Espero que no final do curso tenham apreendido melhor como comunicar esses valores de que falam porque estão no mau caminho.

Associações de estudantes, cuidem para que as vossas praxes sejam bem organizadas, por veteranos mais experientes, e que são controladas até aos veteranos mais novos. Não deixem cair em desgraça e dar razão a tanta má fama que as praxes já têm. Pelo contrário. Tenham cuidado redobrado. Sejam originais, sejam cuidados, tenham valores e passem-nos aos caloiros e à sociedade. Elevem os estudantes não os rebaixem. A superioridade do veterano e a inutilidade do verme bixo que é o caloiro, tem de ser teatralizada com respeito e imaginação. Não sejam óbvios e vazios.

A praxe serve para criar laços de amizade para o resto do curso entre caloiros e veteranos, passar valores universitários, e dizer “Caloiro, estamos aqui há mais tempo, não venhas todo confiançudo! Se te aperceberes que estás entre amigos formaremos família”. A praxe não serve para gritar ordinarices, ser humilhado e ir mal-disposto para casa sem ter criado laços com ninguém.

Dedico este post ao meu padrinho de faculdade, Rex de respeito e grande amizade que ainda hoje mantenho.

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